segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Conquistas, achievements, troféus e jogos de luta

Conquistas, achievements ou troféus (ou seja lá como você os chame) são um recurso dos jogos modernos. Enquanto alguns ignoram ou não se preocupam muito com a sua existência, outros fazem deles um objetivo adicional para com o jogo, tendo uma dose de extra de desafios, que é conseguir fazer todos.

Enquanto nos consoles conforme você vai conseguindo mais, aumenta a pontuação geral do seu perfil (e dependendo da situação conseguir até alguns benefícios). Nas plataformas de computador, ele é mais um item meramente visual, já que não existe recompensa nenhuma em platinar jogos, como na steam por exemplo (a plataforma mais popular no computador). Em compensação, enquanto não existe uma recompensa, você pode usar suas conquistas para personalizar o seu perfil na steam.

Entre criadores de conteúdo mais conhecidos de jogos de luta do Brasil, é bem raro, para não dizer inexistente a existência de vídeos focados em troféus, sejam guias ou a pessoa relatando como foi a experiência. O que me faz pensar se não existe interesse por parte da comunidade ou as pessoas que  criam conteúdo envolvendo jogos de luta não tem interesse nesse assunto. Vejo mais sendo o segundo caso, se a pessoa não se preocupa com esse tipo de coisa, não tem motivo pra gastar energia e tempo com um vídeo desse tipo. Então quando acontece da pessoa que gosta ir atrás desse tipo de conteúdo, normalmente procurando guias para auxiliá-lo, encontra em canais brasileiros que não são focados em jogos de luta ou canais que até são focados em jogos de luta, mas são gringos.

A coisa boa é que dentro desse gênero, tem muito jogo que são fáceis platinar, que renderia bons guias para jogadores casuais como uma sugestão para quem quer ter um jogo completo na sua conta nos consoles ou quer usar para personalizar o perfil na Steam. Como o Samurai Shodown V Special, The King of Fighters 97 e 98 UM são bem tranquilos, com algumas conquistas online, que você pode farmar com um amigo caso tenha dificuldade para achar gente online. O primeiro Guilty Gear é bem tranquilo também, onde para completar, bastar terminar o modo arcade com todos os personagens. Street Fighter 30th Anniversary Collection na maioria das conquistas é bem de boa (terminar os jogos da coletânea e as conquistas online, farmar com um amigo é a melhor opção, pelo fato do online ser vazio). Tekken 7 também, na sua maioria pode ser feito offline.

Eu tenho por hábito, quando um jogo de luta está na sua semana de lançamento, olhar os achievements, para ter uma noção da dificuldade, gosto de ver os ícones, os requisitos, porque surgindo a oportunidade de adquirir o jogo, eu costumo utilizar os achievements para personalizar o meu perfil. Dos últimos jogos de luta lançados, vê-se que Street Fighter 6 apesar de ter conquistas online, focou mais na diversidade que conquistas mais competitivas, como alcançar determinado rank. O que pode não assustar tanto um jogador casual, caso ele tente completar o jogo. Mortal Kombat 1 tem na sua maioria conquistas que são de single player. Pocket Bravery que tem poucas conquistas online e uma boa variedade recompensando o jogador que explorar os modos single player do jogo. Oferecendo um bom desafio e a oportunidade de juntar uma boa quantia da moeda in-game, para desbloquear as cores e cenários dos personagens.

Se alguns jogos são tranquilos, outros não são tanto e exigem do jogador mais técnica e paciência, tornando-se um desafio divertido  pra jogadores mais competitivos. Como Skullgirls, que tem como conquistas mais difíceis "Two Weeks" (onde você enfrenta uma versão modificada e buffada da última chefe), "Conqueror"  (realizar todas as missões) e "Overruled!" (realizar todos os trials, aqui é onde mora o desafio) e Guilty Gear XX Accent Core +R com "Die Hard" (concluir o modo sobrevivência no modo clássico) e "Perfectionist" (conseguir todas as ilustrações, que exige que o jogador jogue todos os modos). Street Fighter V com "Never-Ending Path", que é concluir todos os outros achievements, passando por alguns complicados como "Back from Hell" (concluir o modo sobrevivência no modo inferno),  e "Priceless" (conseguir 1 milhão de fight money, que é a moeda in-game). E existe os que pedem um grind considerável, como Mortal Kombat Komplete Edition com "My Kung Fu is Stronger" (que é ter um tempo de 24 horas de jogo com cada boneco, existindo um contador interno). Dragon Ball FighterZ com "Set for Life" (que é juntar 20 milhões da moeda do jogo) 

Ou os mais problemáticos, como Power Rangers Battle for the Grid, que exige um grind absurdo, além de ter conquista para alcançar rank Grand Master, tarefa que se torna bem difícil, primeiro por ser um rank MUITO alto, segundo pela comunidade do jogo não ser tão grande, mesmo com o crossplataform. 

Eu não vejo o cenário mudando em relação a troféus passar a ser um dos assuntos mencionados por canais grandes só focado em jogos de luta, mas quem sabe canais menores consigam colocar isso como um dos seus temas.



segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Project L e o mito da salvação da FGC

 Recentemente houve um evento, onde a Riot trouxe para o Brasil os desenvolvedores do Project L e convidou criadores de conteúdo de jogos de luta e jogadores pró players para testarem o jogo. O evento tem cara de ter sido muito bacana, criadores de conteúdo de jogos de luta de diferentes jogos (Mortal Kombat, The King of Fighters, Street Fighter), cobrindo visões diferentes do jogo e vídeos e matérias saíram a respeito disso. Uma vez o Project L sendo o destaque do momento, eu vi novamente o papo de "Project L vai revolucionar/salvar a FGC" vindo a tona. E é sobre isso que eu quero refletir.

Antes de mais nada, talvez você não saiba, mas a Riot (dona do League of Legends) está expandindo seu universo para diferentes estilos. Saiu o Valorant, que é um FPS. Na área de jogos de luta, temos o Project L, nome provisório para o jogo que ainda está em desenvolvimento. Para criar um bom jogo, estão os irmãos Cannon, Tom e Tony, duas figuras bem conhecidas no mundo de jogos de luta como cabeças para liderar o projeto.

Desde o ano passado, com as primeiras informações de Project L, começou a surgir uma ideia de que esse seria o jogo que irá salvar a FGC (Fighting Game Community/Comunidade de Jogos de Luta), que será uma revolução, que as outras empresas iriam ter que se adaptar a Riot. Era um momento onde o principal representante do gênero, Street Fighter 5, não era o jogo mais bem visto. A falta de estabilidade do online era uma reclamação antiga pela comunidade, mais o balanceamento, que desagradava a parte competitiva. Infelizmente não foi um jogo que teve os seus últimos meses de maneira alegre, porque com as primeiras informações de Street Fighter 6 e com cada trailer saindo, se aproximando cada vez mais do lançamento, Street Fighter 5 foi sendo esquecido com uma velocidade, talvez não merecida, principalmente não por ser um jogo ruim, mas pela falta de cuidado da Capcom, que poderia ao menos ter refinado as partes problemáticas para deixar o jogo redondo para aqueles que ainda investem tempo nele. Street Fighter 6 saiu e todo aquela conversa de que Project L seria o salvador da FGC foi esquecida.

Curioso que quando olha-se a visão da comunidade internacional a respeito de Project L, muitos jogadores veem com olhos otimistas o jogo que está por sair, mas não existe esse sentimento de que ele será o salvador do gênero, o que me faz pensar que talvez seja uma visão estritamente interna, da comunidade brasileira em torno desse jogo. Talvez porque em muitos casos, a comunidade brasileira se sustenta através da própria comunidade em mais de 90% das situações. A Riot é conhecida por apoiar a comunidade, fazer eventos, prestigiar quem ajuda e faz a comunidade crescer. E é esse gosto que a comunidade de jogos de luta brasileira quer sentir, onde a empresa do jogo de luta, mais que saber que a comunidade existe, também a apoia, não só com palavras, mas com suporte. Gestos que são normais em outros jogos na parte competitiva (como a ajuda na hora de conseguir o visto, para viajar para outro país), que a comunidade brasileira não conhece, não tem esse sentimento. E ver a possibilidade disso acontecer, enche os olhos dos competidores e da comunidade de esperança.

Antes do lançamento do Street Fighter 6, quando Street Fighter 5 agonizava os seus últimos meses, vi gente falando que as empresas deveriam se adequar, talvez até a probabilidade dos futuros jogos de luta serem free to play, com sua renda vindo de personagens comprados a parte e skins, assim como é o modelo da maioria dos jogos free to play atualmente. Ideia essa que se for analisada nos dias de hoje não faz o menor sentido. Street Fighter 6 saiu com o preço de AAA e vendeu bem, mais do que bem. Nem a moeda in-game inserida no Street Fighter 5, que permitia comprar personagens sem precisar gastar dinheiro real foi mantida no 6. Com a Capcom retomando a atenção para ela e o jogo voltando a ser o destaque no gênero, entregando várias coisas que a comunidade havia pedindo, qual o sentido dele ser ou se tornar free to play? Nenhum. O jogo vai continuar recebendo atualizações por mínimo uns 5 anos e não, eu duvido muito que o próximo Street Fighter a Capcom vai ser audaciosa em tornar o jogo free to play só para trazer público. Porque para trazer público novo, mais do que apresentar um jogo bonito, existem mecânicas para atrair os novatos (controles simplificados), além de conteúdo para quem não quer focar na parte competitiva do jogo. Mortal Kombat 1 é um jogo belíssimo, com um grande público casual, mais uma vez preço de AAA e está vendendo bem. Eu pergunto novamente, qual seria o sentido dele ser free to play? Nenhum.

Existe também o argumento que com o jogo sendo de graça e a Riot apoiando a comunidade de perto, que não faria sentido um jogador competitivo (que mira em ser pró player) investir tempo em outros jogos e por mais que na teoria esse argumento faça sentido, na prática as coisas não tão óbvias assim. Primeiro que a comunidade competitiva de jogos animes fighters/tag teams (jogos baseados ou com traços de anime e tag teams são jogos em equipe, como Dragon Ball Fighterz ou Ultimate Marvel vs Capcom 3) nunca foi a mesma que a comunidade de Street Fighter (a maior comunidade atualmente), simplesmente por serem jogos bem diferentes, sejam em estilo ou jogabilidade, o que não agrada ou não chama a atenção da mesma proporção de pessoas. Tirando o caso de pouquíssimas pessoas que transitam entre essas comunidades. Então eu não vejo o povo de Street Fighter indo em larga escada pra Project L, simplesmente porque financeiramente é melhor. O que eu vejo é a criação de uma nova comunidade, com jogadores de diversas áreas, mas eu não acho que a predominância de jogadores da cena será de jogadores que anteriormente eram de Street Fighter. Eu uso a comunidade de Street Fighter como exemplo porque é a maior atualmente.

Se existe um exagero em querer enxergar um salvador, eu vejo com mais pés no chão a parte boa que esse jogo vai trazer ao gênero e a comunidade brasileira. Primeiro é a comunicação com a comunidade competitiva brasileira, um apoio ainda não visto, porque esse é o método que a Riot trabalha em outros jogos. Então para quem quer investir e viver disso, será um ótimo momento. Do ponto de vista internacional, existe todo um cenário a ser desenhado, o que é muito bom para quem é competidor.  Sobre o jogo, será ótimo para trazer gente para o gênero, gente nova. Gente que nunca deu muita atenção para o gênero e ele será o jogo de entrada.  Porque é isso que todo gênero de jogo de video game precisa, gente nova, pra ter renovação e não deixar o gênero cair no esquecimento (não que seja o caso de jogos de luta no momento, mas trazer gente nova ao gênero nunca é demais).