segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Project L e o mito da salvação da FGC

 Recentemente houve um evento, onde a Riot trouxe para o Brasil os desenvolvedores do Project L e convidou criadores de conteúdo de jogos de luta e jogadores pró players para testarem o jogo. O evento tem cara de ter sido muito bacana, criadores de conteúdo de jogos de luta de diferentes jogos (Mortal Kombat, The King of Fighters, Street Fighter), cobrindo visões diferentes do jogo e vídeos e matérias saíram a respeito disso. Uma vez o Project L sendo o destaque do momento, eu vi novamente o papo de "Project L vai revolucionar/salvar a FGC" vindo a tona. E é sobre isso que eu quero refletir.

Antes de mais nada, talvez você não saiba, mas a Riot (dona do League of Legends) está expandindo seu universo para diferentes estilos. Saiu o Valorant, que é um FPS. Na área de jogos de luta, temos o Project L, nome provisório para o jogo que ainda está em desenvolvimento. Para criar um bom jogo, estão os irmãos Cannon, Tom e Tony, duas figuras bem conhecidas no mundo de jogos de luta como cabeças para liderar o projeto.

Desde o ano passado, com as primeiras informações de Project L, começou a surgir uma ideia de que esse seria o jogo que irá salvar a FGC (Fighting Game Community/Comunidade de Jogos de Luta), que será uma revolução, que as outras empresas iriam ter que se adaptar a Riot. Era um momento onde o principal representante do gênero, Street Fighter 5, não era o jogo mais bem visto. A falta de estabilidade do online era uma reclamação antiga pela comunidade, mais o balanceamento, que desagradava a parte competitiva. Infelizmente não foi um jogo que teve os seus últimos meses de maneira alegre, porque com as primeiras informações de Street Fighter 6 e com cada trailer saindo, se aproximando cada vez mais do lançamento, Street Fighter 5 foi sendo esquecido com uma velocidade, talvez não merecida, principalmente não por ser um jogo ruim, mas pela falta de cuidado da Capcom, que poderia ao menos ter refinado as partes problemáticas para deixar o jogo redondo para aqueles que ainda investem tempo nele. Street Fighter 6 saiu e todo aquela conversa de que Project L seria o salvador da FGC foi esquecida.

Curioso que quando olha-se a visão da comunidade internacional a respeito de Project L, muitos jogadores veem com olhos otimistas o jogo que está por sair, mas não existe esse sentimento de que ele será o salvador do gênero, o que me faz pensar que talvez seja uma visão estritamente interna, da comunidade brasileira em torno desse jogo. Talvez porque em muitos casos, a comunidade brasileira se sustenta através da própria comunidade em mais de 90% das situações. A Riot é conhecida por apoiar a comunidade, fazer eventos, prestigiar quem ajuda e faz a comunidade crescer. E é esse gosto que a comunidade de jogos de luta brasileira quer sentir, onde a empresa do jogo de luta, mais que saber que a comunidade existe, também a apoia, não só com palavras, mas com suporte. Gestos que são normais em outros jogos na parte competitiva (como a ajuda na hora de conseguir o visto, para viajar para outro país), que a comunidade brasileira não conhece, não tem esse sentimento. E ver a possibilidade disso acontecer, enche os olhos dos competidores e da comunidade de esperança.

Antes do lançamento do Street Fighter 6, quando Street Fighter 5 agonizava os seus últimos meses, vi gente falando que as empresas deveriam se adequar, talvez até a probabilidade dos futuros jogos de luta serem free to play, com sua renda vindo de personagens comprados a parte e skins, assim como é o modelo da maioria dos jogos free to play atualmente. Ideia essa que se for analisada nos dias de hoje não faz o menor sentido. Street Fighter 6 saiu com o preço de AAA e vendeu bem, mais do que bem. Nem a moeda in-game inserida no Street Fighter 5, que permitia comprar personagens sem precisar gastar dinheiro real foi mantida no 6. Com a Capcom retomando a atenção para ela e o jogo voltando a ser o destaque no gênero, entregando várias coisas que a comunidade havia pedindo, qual o sentido dele ser ou se tornar free to play? Nenhum. O jogo vai continuar recebendo atualizações por mínimo uns 5 anos e não, eu duvido muito que o próximo Street Fighter a Capcom vai ser audaciosa em tornar o jogo free to play só para trazer público. Porque para trazer público novo, mais do que apresentar um jogo bonito, existem mecânicas para atrair os novatos (controles simplificados), além de conteúdo para quem não quer focar na parte competitiva do jogo. Mortal Kombat 1 é um jogo belíssimo, com um grande público casual, mais uma vez preço de AAA e está vendendo bem. Eu pergunto novamente, qual seria o sentido dele ser free to play? Nenhum.

Existe também o argumento que com o jogo sendo de graça e a Riot apoiando a comunidade de perto, que não faria sentido um jogador competitivo (que mira em ser pró player) investir tempo em outros jogos e por mais que na teoria esse argumento faça sentido, na prática as coisas não tão óbvias assim. Primeiro que a comunidade competitiva de jogos animes fighters/tag teams (jogos baseados ou com traços de anime e tag teams são jogos em equipe, como Dragon Ball Fighterz ou Ultimate Marvel vs Capcom 3) nunca foi a mesma que a comunidade de Street Fighter (a maior comunidade atualmente), simplesmente por serem jogos bem diferentes, sejam em estilo ou jogabilidade, o que não agrada ou não chama a atenção da mesma proporção de pessoas. Tirando o caso de pouquíssimas pessoas que transitam entre essas comunidades. Então eu não vejo o povo de Street Fighter indo em larga escada pra Project L, simplesmente porque financeiramente é melhor. O que eu vejo é a criação de uma nova comunidade, com jogadores de diversas áreas, mas eu não acho que a predominância de jogadores da cena será de jogadores que anteriormente eram de Street Fighter. Eu uso a comunidade de Street Fighter como exemplo porque é a maior atualmente.

Se existe um exagero em querer enxergar um salvador, eu vejo com mais pés no chão a parte boa que esse jogo vai trazer ao gênero e a comunidade brasileira. Primeiro é a comunicação com a comunidade competitiva brasileira, um apoio ainda não visto, porque esse é o método que a Riot trabalha em outros jogos. Então para quem quer investir e viver disso, será um ótimo momento. Do ponto de vista internacional, existe todo um cenário a ser desenhado, o que é muito bom para quem é competidor.  Sobre o jogo, será ótimo para trazer gente para o gênero, gente nova. Gente que nunca deu muita atenção para o gênero e ele será o jogo de entrada.  Porque é isso que todo gênero de jogo de video game precisa, gente nova, pra ter renovação e não deixar o gênero cair no esquecimento (não que seja o caso de jogos de luta no momento, mas trazer gente nova ao gênero nunca é demais).


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