quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Não é KOF, SF e MK, mas dá pra jogar (a falta de diversidade na criação de conteúdo de FG BR, jogos de luta indies e a FGC BR)

 Nem só de Street Fighter, The King of Fighters e Mortal Kombat sobrevive os jogos de luta, tem muita coisa boa, principalmente na área de indies que não tem a atenção. E quando por alguma situação surge a vontade de procurar conteúdo a respeito deles, existe uma grande chance de você acabar caindo em algum canal aleatório brasileiro que cobre todo tipo de jogo (sem dar valor devido e detalhar coisas, que uma pessoa mais familiarizada com jogos de luta faria) ou em algum canal gringo focado em jogos de luta (o que vai ser um incômodo caso você não entenda inglês). Mas por que a cena em torno de criadores de conteúdo e pessoas influentes na FGC BR (Fighting Game Community Brasil/Comunidade de jogos de Luta Brasileira) não costuma experimentar jogos menores do gênero? 

No inicio do Youtube os CMV (Combo Music Video) eram bem populares e após isso, foram surgindo pessoas falando a respeito de jogos de luta. Sejam elas contando a história de um jogo ou franquia, comentando os jogos de luta saindo naquele momento, postando CMVs ou só para postar gameplays. Com isso foi natural que os jogos mais falados fossem The King of Fighters, Street Fighter e Mortal Kombat. Porque são franquias que brilharam no auge dos fliperamas aqui no Brasil, ali entre os anos 90 e 2000. Mas conforme a cena de criadores de conteúdo foi se formando, a era dos fliperamas morreu pra dar lugar pros consoles e com o lançamento dos mais tipos variados de jogos de luta com o passar dos anos, a cena de criação de conteúdo ficou muito presa a somente a tríade do gênero.

Até jogos do "segundo escalão" (animes fighters, arena fighters, Guilty Gear, Blazblue, Dragon Ball Fighterz) tem conteúdo reduzido, mesmo que muitos não percam em nada para jogos do "primeiro escalão", ficando limitados a canais menores dentro da sua própria comunidade.

Claro que ninguém é obrigado a jogar o que não gosta, mas não existe nem o interesse de testar ou trazer para a sua audiência algo diferente ou quando surge, parece existir mais empecilhos do que vantagens em fazer tal coisa, o que desanima quem ainda tenta dar uma chance. Como o caso que li uma vez um criador de conteúdo desabafando que tentou trazer Guilty Gear Strive pro canal, mas a adesão do público foi tão baixa, que foi melhor só focar no KOF. Ou quando li um criador de conteúdo que primariamente traz vídeos de um jogo a nível competitivo (SF) e estava aprendendo outro, não fazer conteúdo nenhum (nem live), quando essa poderia ser a chance de apresentar um novo jogo ao seu público ao olhos de um novato, o que poderia incentivar pessoas a começar a jogar ele, mas a impressão que tenho é que se ele não estava jogando a nível competitivo o jogo que estava aprendendo, então não era interessante trazer para o seu canal. Em contra partida existem os poucos casos de pessoas que tentam (ou tentavam) trazer diversidade na criação de conteúdo nesse gênero aqui. Quem é das antigas deve lembrar do Igor3k com o "Clube da Luta", onde a proposta era só se divertir e apesar de ser um canal que primariamente trazia KOF 2002, ele sempre estava trazendo coisa diferente, nem que fosse pra testar só uma vez. Yorezord é um criador de conteúdo de jogos de luta que traz diversidade, as vezes revisitando um clássico dos fliperamas, um jogo do "segundo escalão" ou mesmo indie (Idol Showdown). "Jogos de luta Brasil" é outro canal que traz variedade (e um dos poucos BRs que eu vi trazer gameplay de Power Rangers Battle for the Grid). Esses só são alguns exemplos, mostrando que ainda existem criadores que fazem o possível pra trazer conteúdo diversificado e não só SF, MK e KOF aqui no Brasil.

Houve em abril desse ano, na plataforma de PC Steam um evento promovendo de jogos de luta indies (Indie Fighting Games Fest) , que foi dos dias 13 a 17, e nesse período eu não vi um criador de conteúdo BR fazer um vídeo a respeito disso, nem que fosse pelo menos pra testar a demo de algum jogo. E temos exemplos de ótimos jogos que poderiam muito bem servir pra fazer conteúdo personalizado, como o jogo FOOTSIES, que poderia ser usado em um vídeo tutorial, pra ajudar a pessoa melhorar o seu posicionamento (e que se você for procurar conteúdo BR não acha o suficiente pra encher 5 dedos de uma mão). A série de jogos WWE para os amantes de wrestling, e mesmo se não for possível trazer um jogo mais recente pelo fator preço, poderia trazer um jogo de WWE que tem o Mike Haggar dos anos 90, enquanto se comenta alguma notícia do cenário que tenha furado a bolha . E Brawlhalla, que tem uma comunidade imensa, uma chance de apresentar um arena fighter (apesar de existir ótimos, até esquecidos, como Power Stone) como um jogo casual pra um público que consome mais jogos de luta 2.5D. Brawlhalla é o Fortinite dos jogos de luta, quando o assunto é crossover e ele é de graça. Mas pra galera que só consome ou joga a tríade de jogos de luta no Brasil, isso não importa.

E teve um jogo de luta no meio dos indies que conseguiu chamar a atenção de uma boa parcela da comunidade BR: Pocket Bravery. Um excelente jogo de luta, com mecânicas juntando o melhor de jogos clássicos e modernos, com um leque de combos admirável, personagens carismáticos, tanto em construção visual, quanto nos seus temas e MUITO conteúdo offline pra quem é casual. Com um pequeno detalhe: Pocket Bravery é um jogo brasileiro. Se esse jogo não tivesse sido desenvolvido aqui, ele teria o mesmo impacto e teria chamado o mesmo tanto de atenção aqui no Brasil? NÃO, não teria (ok, esse é o momento de você que adora o jogo retrucar, mas calma). O fato do jogo ser brasileiro, traz um sentimento de intimidade, ainda mais quando se conhece a história da equipe que criou o jogo e o quanto batalharam, a gente se sente mais próximo dos desenvolvedores, orgulhosos de um jogo com tantas qualidades, um sentimento intenso e paixão pelo fato de ser do Brasil. Sabe aquela paixão que vemos pelo futebol, ela acontece também na cena de jogos de luta. Sentimento esse que aconteceu um tempo atrás em Brawlhalla, pessoas que nunca se importaram com o jogo, começaram a vibrar como se o jogassem desde criança, porque um brasileiro levou o mundial. Mas antes disso, não acompanharam e muito menos sabiam que existia um brasileiro na competição (um não, vários). Quantos jogos de luta indies interessantes passaram por você, que tem equipes tão pequenas e histórias de superação tão marcantes quanto a Statera Studios (criadora do Pocket Bravery), mas você nunca se importou? Não tenha dúvida que se algum deles fosse desenvolvido aqui, uma parte da comunidade olharia com outros olhos. Quando foi a última vez que você deu uma chance pra jogar um jogo de luta indie? Nem que seja só uma demo.

Em compensação um fato que eu achei muito legal foi a formação da comunidade BR de Pocket Bravery, dando apoio ao jogo, com muitos criadores de conteúdo pequeno fazendo vídeo, infelizmente alguns criadores de conteúdo com maior alcance de dentro da cena, que poderiam ter divulgado o jogo, poderiam pelo menos ter trazido um vídeo com primeiras impressões, não o fizeram. Ninguém é obrigado a nada, mas se existe a oportunidade de dar uma moral, por que não? Coisa que a comunidade gringa fez sorrindo, aplaudindo as qualidades do jogo.

 Enquanto a cena de criadores de conteúdo aqui age de um jeito, lá fora eles agem o contrário e passam a impressão de estarem muito mais dispostos a testarem jogos indies, experimentarem jogos diversos, tanto os canais menores, quanto os que tem mais relevância, chegando até em pró players. Como o Smug, que começou no SF, mas já se aventurou em outros jogos, vez ou outra está no fightcade (emulador pra jogar online jogos de fliperama) e a melhor reação que lembro até hoje foi quando ele pegou Mortal Kombat 11 pra jogar com o Jax e enquanto estava aprendendo o básico do boneco, se surpreendeu de existir um botão pra defesa. Justin Wong que joga vários jogos e testou até o Pocket Bravery (além de fazer conteúdo apresentando o jogo pra outros pró players, Kbrad e Xian). E Maximillian Dood, que é o canal mais conhecido de jogos de luta, onde ele joga de tudo um pouco.

Precisamos começar a trabalhar na mudança na nossa cena de criação de conteúdo, pra que diversidade não seja vista como coisa de outro planeta. Como experimentar jogos diferentes, mesmo que a nível casual. Pra quem sabe consigamos influenciar pessoas a se interessarem e testarem mais jogos de luta, unificar as comunidades menores e não limitar o gênero a dois ou três títulos. 

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